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Entre sentir e fazer chegar

Por que o amor que existe inteiro em nós tantas vezes chega pela metade?

Capa de Amar é inadiável, de Socorro Acioli, publicada pela Editora Planeta.
Capa da edição da Editora PlanetaConhecer a edição digital na Planeta ↗

Tem livros que a gente termina. Mas tem livros que continuam escrevendo alguma coisa dentro de nós. Foi isso que aconteceu comigo lendo Amar é inadiável, da Socorro Acioli.

Talvez uma das dores mais silenciosas da vida seja perceber que alguém partiu sem ter recebido, por inteiro, o amor que existia em nós.

Não porque tenhamos amado pouco. Mas porque, entre sentir e fazer chegar, quase sempre acreditamos que haverá outro telefonema, outro café, outro amanhã.

É estranho pensar que um sentimento possa existir inteiro dentro de alguém e, ainda assim, chegar incompleto ao outro. A gente sente, mas não diz. Percebe, mas não se aproxima. Quer cuidar, mas adia o gesto. Ama, mas vive como se o tempo também soubesse esperar.

Até o dia em que já não há mais tempo.

A distância

O livro reúne 66 crônicas selecionadas de um arquivo de cerca de trezentos textos escritos ao longo de anos. Foi o livro mais vendido da Flip de 2026, segundo a lista final da livraria oficial. O número ajuda a explicar por que tanta gente está olhando para ele agora. Mas não explica o que acontece quando suas palavras chegam a alguém.

Porque este não é apenas um livro sobre a urgência de dizer “eu te amo”. Também não é um tratado organizado para provar uma ideia. As crônicas atravessam amor, morte, amizade, animais, leitura, escrita, alegria, tristeza, memória, medo e ausência. O título abriga tudo isso, mas não esgota o livro.

A pergunta que fica não é apenas se estamos amando hoje.

É outra:

por que o amor que existe inteiro dentro de nós tantas vezes chega tarde, incompleto ou irreconhecível ao outro?

Quando a falta forma o olhar

Socorro perdeu o pai quando tinha três anos. Ele trabalhava nos Correios e queria ser cronista esportivo. Décadas depois, ela se tornou escritora e reuniu um livro de crônicas dedicado a ele.

Foi criada pela avó, cercada por histórias contadas antes de ter uma grande biblioteca. Sua vida atravessou ausências, sofrimento, animais amados, amizades, filhas, leitores e pessoas que morreram cedo demais. Nada disso explica toda a sua obra. Uma biografia nunca deveria ser transformada numa fórmula que encerra alguém.

Mas talvez ajude a compreender de onde veio esse modo de olhar.

Algumas faltas não deixam apenas um vazio. Elas ensinam os olhos a procurar.

Em A fotografia que nunca terei, Socorro parte de uma imagem impossível: a fotografia dos pais juntos. O pai morreu cedo. A mãe atravessou um sofrimento psíquico grave. A imagem não existe no papel, mas sua ausência participa da maneira como a autora tenta compreender de onde veio e como continua os dois dentro de si.

Em Só o amor nos permite enxergar, a morte do gato Caramelo José não aparece como um detalhe doméstico usado para chegar a uma tese maior. A relação já é grande. O amor é aquilo que retira uma vida da categoria de detalhe.

Em Carta a uma amiga triste, Socorro não corre para oferecer uma solução. Não transforma a tristeza da outra em problema a ser resolvido. Ela permanece. Oferece companhia, hora presente e literatura. Às vezes, cuidar de alguém é desistir de apressar sua cura.

Na crônica que dá título ao livro, a morte de Tati faz nascer uma carta que já não pode chegar da maneira imaginada. O texto não desfaz a ausência. Não corrige o que ficou para depois. Mas dá forma ao amor que permaneceu sem destino e reorganiza a pessoa que ficou.

Em determinado momento, Socorro escreve:

“Pensei em telefonar, contar novidades, saber da vida… Deixei para outro dia e isso foi um erro. O tempo é uma dádiva finita.”

A frase nos coloca dentro do instante em que o amor ainda tinha uma ação possível. Ela pensou, adiou e perdeu a oportunidade. Quando o texto nomeia a finitude do tempo, o leitor já sentiu o que essa finitude custou.

Essa passagem não chegou até mim apenas como leitura. Ela virou uma poesia minha.

No Dia do Amigo, publiquei Onde a Amizade Mora. O texto começava com o nome de um amigo surgindo tarde da noite e uma mensagem que não chegou a ser enviada:

> Era tarde da noite. Seu nome me apareceu como quem volta. Do nada. Eu escrevi 'oi, sumido!!' Li… sorri... e apaguei... Achei que já tinha passado tempo demais.
>
> A gente foi empurrando. Depois eu chamo... semana que vem eu ligo... E o silêncio foi crescendo até parecer distância.

Na crônica de Socorro, o telefonema adiado só revela todo o seu peso quando Tati já não pode atendê-lo. Na minha poesia, o adiamento se transforma numa mensagem escrita e apagada para um amigo que ainda pode recebê-la.

Eu não levei a cena comigo para explicá-la. Levei para a minha vida. O telefonema se tornou mensagem. A ausência irreparável se tornou um silêncio que ainda podia ser atravessado. A urgência do amor encontrou a urgência da amizade.

A carta para quem já não podia receber virou, em mim, uma mensagem para quem ainda podia.

Foi então que percebi algo ainda mais bonito: o texto já havia me ensinado antes que eu soubesse explicar o que tinha aprendido.

No fim da crônica, Socorro reconhece na própria Tati o recado que dá título ao livro e agradece à amiga. A carta que parecia destinada a alguém que morreu atravessa a morte e chega a quem está lendo.

É assim que a falta começa a se transformar.

Primeiro, ela muda o olhar.

Depois, o olhar aprende a prestar atenção.

A atenção tenta se tornar presença.

E a presença procura uma palavra capaz de chegar ao outro.

A sensação de me encontrar na escrita de alguém

Foi no meio desse movimento que a leitura deixou de ser apenas compreensão para mim.

Há escritores que eu admiro. Há escritores com os quais concordo. E há aqueles, mais raros, em cujas palavras eu me enxergo.

É isso que acontece comigo quando leio Socorro Acioli.

Apesar de serem crônicas, tenho a sensação de que ela escreve como eu. Não porque tenhamos vivido as mesmas histórias, nem porque eu queira diminuir a singularidade da voz dela. Eu me reconheço no movimento da escrita.

Na linguagem que não ergue um muro diante do leitor.

No olhar que não abandona quem está do outro lado.

Na emoção que não pede desculpas por existir.

Nas imagens que fazem o pensamento ganhar corpo.

No ritmo e na fluidez que transformam reflexão em conversa.

Ao lê-la, eu não fico do lado de fora, observando uma autora organizar a própria vida. Sinto que ela abre espaço para que eu entre. A experiência é dela, mas alguma coisa em mim reconhece o caminho. A frase começa numa biografia que não é a minha e termina iluminando uma parte da minha própria vida.

Talvez seja essa a sensação mais bonita que a literatura pode oferecer: encontrar a nossa maneira de sentir dentro de palavras que outra pessoa escreveu.

E talvez seja aí que o aprendizado acontece.

Socorro não precisa decidir ensinar alguma coisa. O texto não precisa se transformar em lição. Aprender é algo que nasce no recebimento do leitor. A gente recebe a experiência de outra pessoa, reconhece nela alguma coisa que já vivia dentro de nós e passa a enxergar, sentir ou nomear de outra maneira.

O texto ensina porque chegou.

Presença não é conserto

Mas há um risco quando se diz que amar é inadiável: transformar urgência em cobrança.

O amor não corrige retroativamente a história. Nem toda palavra chega. Nem toda falta pode ser reparada. E amar alguém não significa estar disponível o tempo inteiro ou abandonar o próprio limite para provar esse amor.

Às vezes, presença é um abraço demorado, escutar sem pressa. Às vezes, é permanecer em silêncio sem ir embora por dentro. E, às vezes, é reconhecer com honestidade a distância necessária para que o amor não continue produzindo ferida.

É aqui que essa presença pode ser lida como INTEIREZA.

Inteireza não é amar sem cansaço, medo ou limite. É buscar alguma coerência entre o amor que existe, a pessoa que conseguimos enxergar e a forma pela qual existimos diante dela.

Sentir inteiro não basta quando tudo o que fazemos chega pela metade.

Mas fazer chegar também não significa fazer tudo.

O amor inteiro não é o amor que consegue resolver. É o amor que procura uma forma verdadeira, possível e reconhecível de chegar.

A ponte

Na primeira crônica do livro, Socorro apresenta a escrita como uma ponte.

A experiência não vai crua para o papel. Ela passa por memória, estudo, técnica, escolha, ritmo e elaboração. A vida precisa ser trabalhada até se transformar em algo que outra pessoa consiga receber.

De um lado da ponte, há alguém tentando compreender o que viveu.

Do outro, há um leitor que talvez nunca conheça essa pessoa.

Entre os dois, há uma palavra procurando chegar.

Talvez seja esse o movimento humano mais completo de Amar é inadiável: transformar falta em atenção, atenção em presença, presença em palavra e palavra em algo que possa chegar ao outro.

Quando chega, a palavra não muda apenas quem escreveu.

Muda também quem recebe.

Pode devolver atenção ao que a rotina transformou em detalhe. Pode iluminar a parte de nós que ama, mas posterga a presença. Pode alcançar também a parte que sobreviveu a faltas que nenhum amor posterior consegue corrigir.

E abre uma pergunta incômoda, mas necessária:

sentimento não comunicado, cuidado não praticado e vida não vivida ainda podem ser chamados de amor inteiro?

Não existe uma única resposta.

Talvez a humanidade resgatada por essas crônicas esteja justamente na capacidade de olhar, acompanhar, nomear, agradecer e entregar alguma coisa ao outro sem transformar ternura em sermão.

Sem dizer ao leitor como ele deve amar.

Mas permitindo que, ao receber aquelas palavras, ele reconheça alguma coisa do próprio amor.

Quando chega

Talvez amar seja não permitir que aquilo que existe inteiro em nós permaneça para sempre sem forma.

Às vezes, ele chega como abraço demorado. Às vezes, como silêncio que acompanha. Às vezes, como um limite que protege. Às vezes, como uma palavra escrita depois de muita vida.

Foi isso que senti lendo Socorro.

Uma vida que não foi a minha atravessou a ponte e chegou até mim. E, quando chegou, não me entregou uma lição pronta. Entregou reconhecimento.

É por isso que algumas palavras parecem nossas, mesmo quando outra pessoa as escreveu.

Elas chegaram inteiras.

E, quando chegam, acontece algo ainda mais raro: fazem com que a gente se sinta visto.

Amar é inadiável!!

Rodrigo Kluska

Aqui no Humanidade Retratada publico o ensaio original e completo após minhas impressões humanas e críticas. Após esse texto é criada uma síntese em outra linguagem mas com a mesma direção. Essa síntese é publicada em formato de reel em @humanidade.retratada no Instagram.

Onde encontrar. Amar é inadiável, de Socorro Acioli, foi publicado pela Editora Planeta do Brasil em 2026. A edição impressa tem 224 páginas e ISBN 978-85-422-4314-7; pode ser localizada em livrarias físicas e online, inclusive na Livraria da Travessa. O e-book, ISBN 978-85-422-4324-6, está disponível na loja digital oficial da Planeta. A editora também disponibiliza uma amostra oficial.

Ficha técnica

Amar é inadiável

Autora
Socorro Acioli
Editora
Editora Planeta do Brasil
Edição
1ª edição · 2026
Páginas
224
ISBN impresso
978-85-422-4314-7
ISBN digital
978-85-422-4324-6

Onde encontrar

Edição impressa em livrarias físicas e online e e-book na loja digital oficial da Planeta. A disponibilidade varia por loja.
Encontrar na Livraria da Travessa ↗

Disponibilidade verificada em 18 de agosto de 2026. Catálogos e sessões podem mudar.

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