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O Século dos Imbecis: o que você fez com tudo o que já sabe?

Um dos livros mais vendidos da Flip me fez perceber que talvez o problema do nosso tempo nunca tenha sido a falta de informação.

Capa de O Século dos Imbecis, de Valter Hugo Mãe, em verde, amarelo e branco.
Capa da edição da Porto EditoraConhecer a edição ↗

A Flip terminou no domingo. Foram cinco dias em Paraty, cerca de quarenta mil pessoas e a maior edição da história da festa, em vinte e quatro anos.

Quando a Livraria da Travessa fechou o caixa e divulgou a lista final dos mais vendidos, os dois primeiros lugares eram estes, exatamente nesta ordem:

Amar é Inadiável, da cearense Socorro Acioli.
O Século dos Imbecis, do português Valter Hugo Mãe.

Fiquei alguns minutos olhando para esses dois títulos, um debaixo do outro. Eles parecem contar uma história sobre nós. De um lado, a urgência do amor. Do outro, a suspeita de que estamos ficando cada vez mais superficiais. O país comprou os dois na mesma semana. Talvez até com as mesmas mãos.

Hoje eu quero falar do segundo. Porque o título dele é uma armadilha. E eu caí nela.

A armadilha

Quando você lê O Século dos Imbecis, a primeira reação é quase inevitável. Você sorri. E pensa: enfim alguém escreveu um livro dizendo que o problema são os outros.

Os fanáticos. Os ignorantes. Quem pensa diferente da gente. A lista aparece sozinha, e ela nunca inclui quem está fazendo a lista.

É aí que está a armadilha. O livro oferece o prazer de acreditar que você está do lado certo, e depois passa mais de trezentas páginas desmontando essa ilusão.

Porque a pergunta nunca foi quem são os imbecis. A pergunta é outra:

como alguém escolhe descer a montanha num tempo em que nunca foi tão fácil subir?

A montanha

O protagonista é Agilulfo, um marquês que vive isolado num palacete antigo, no alto de uma montanha. Existe uma regra naquele lugar: quanto mais ele sobe, mais lúcido e inteligente se torna; quanto mais desce em direção ao nível do mar, mais perde a inteligência.

A própria sinopse já entrega a chave. Ela avisa que a tentação de descê-lo é maior do que a de subi-lo. Repare que a frase é sobre a vila, e não sobre ele: são os outros que sentem a tentação de trazer o marquês para baixo, porque ali embaixo ele diverte. Mas ela vale igual quando a gente troca o marquês por si mesmo.

Vale registrar de onde vem o nome. Agilulfo é uma personagem de Italo Calvino, de O Cavaleiro Inexistente: um cavaleiro que não existe, apenas uma armadura vazia que caminha, fala e cumpre o regulamento à perfeição. Forma impecável, sem ninguém dentro. Valter Hugo Mãe assumiu a ligação quando apresentou o livro no Porto. Guarde essa imagem, porque ela volta.

Quando li essa frase da sinopse, achei que o livro fosse falar apenas sobre ignorância. Não é isso. Ele fala sobre escolha. Porque descer não exige esforço. Subir exige. Todos os dias.

O século da informação

Dias antes da Flip, numa entrevista aqui no Brasil, o próprio autor traduziu a metáfora:

"Se você quiser, o Agilulfo é o próprio celular."

Achei uma boa resposta. Mas dentro do romance existe uma frase que me pareceu muito maior do que essa metáfora:

"Somos do século da informação, mas não do século da felicidade. Não somos sequer do século do conhecimento. Porque mantemos o que há a saber fora de nossa cabeça e, pior, fora de nossa conduta."

Confesso que parei a leitura. Porque essa talvez seja uma das melhores definições do nosso tempo que eu já encontrei.

Nós repetimos há anos que vivemos na era do conhecimento.

Será?

Talvez vivamos apenas na era do acesso.

A internet resolveu um dos maiores problemas da história da humanidade: o acesso ao saber. Hoje qualquer pessoa pode aprender praticamente qualquer assunto. As melhores universidades publicam aulas gratuitamente. Qualquer livro pode ser encontrado em segundos. Uma inteligência artificial explica praticamente qualquer conceito.

Nunca foi tão fácil saber.

E, mesmo assim, nunca foi tão fácil permanecer superficial.

Porque acesso não é conhecimento. E conhecimento também não é transformação. Essa talvez seja a maior confusão da nossa época: achamos que informação produz conhecimento. Não produz.

Informação é aquilo que chega até nós.

Conhecimento é aquilo que reorganiza a maneira como enxergamos o mundo.

E sabedoria... sabedoria é quando esse conhecimento finalmente reorganiza a maneira como vivemos.

A criada

É justamente por isso que a personagem mais importante do romance não é Agilulfo. É a criada.

Ela passa boa parte da história quase invisível. Não ocupa o centro. Não tem prestígio. Não tem acesso. Não tem sequer nome próprio.

Quando perguntaram ao autor sobre ela, ele respondeu:

"Ela toma conta do livro, ela rouba o livro."

Depois explicou por quê:

"Ela faz o futuro. Ela tem a arte imanente do fazer."

E concluiu com uma frase que ficou comigo desde então:

"Só há futuro para aqueles que continuam a fazer."

Ali eu entendi que o livro nunca foi sobre inteligência. Foi sobre ação.

E é aqui que a armadura de Calvino volta. O marquês é a forma perfeita sem ninguém dentro: todo o saber do mundo e nenhuma consequência. A criada é o contrário exato: nenhuma forma, nenhum acesso, nenhum título, e tudo acontecendo por dentro.

O contraste é brilhante. A vila inteira tinha acesso ao homem mais inteligente do mundo, e preferiu descê-lo da montanha para rir. Quem tinha menos acesso foi justamente quem decidiu fazer alguma coisa.

Toda empresa tem uma criada

Passei mais de vinte anos observando organizações por dentro. E aprendi uma coisa: toda empresa tem uma criada.

É aquela pessoa que sustenta a operação enquanto a sala de reunião continua discutindo conceitos. É quem faz. Sem discurso. Sem palco. Sem LinkedIn. Sem aplauso.

E, curiosamente, quase nunca é quem mais fala sobre liderança.

Porque existe uma diferença enorme entre conhecer uma ideia e colocá-la em prática. Hoje sabemos mais sobre liderança do que qualquer geração antes de nós. Mais sobre educação, sobre saúde, sobre relacionamentos, sobre produtividade, sobre psicologia, sobre felicidade. Nunca soubemos tanto.

Saber nunca foi tão barato. Continuar vivendo como antes continua custando exatamente o mesmo.

A montanha mais difícil

Descer é gravidade. Basta soltar o corpo. Subir exige decisão. Talvez seja por isso que a tentação de descer seja sempre maior.

E é por isso que a pergunta que ficou comigo depois desse livro não é quem são os imbecis. Nem quem está subindo, nem quem está descendo.

A pergunta é esta:

depois de tudo o que você já aprendeu, em que direção os seus passos estão te levando?


Você provavelmente conhece alguém que te ensinou alguma coisa sem nunca ter te explicado nada. Alguém que não te deu uma aula, te deu um exemplo. Se essa pessoa apareceu na sua cabeça enquanto você lia, encaminhe este texto para ela. Ela provavelmente acha que ninguém reparou.

Onde encontrar. O Século dos Imbecis, de Valter Hugo Mãe. Biblioteca Azul (Globo Livros), 2026, 344 páginas. Capa dura com preço de capa de R$ 84,90 na Travessa, na Livraria da Vila e na Martins Fontes, com desconto variável na Amazon. E-book Kindle a R$ 54,90. O romance marca os trinta anos de carreira do autor, que estreou em 1996 com o livro de poesia silencioso corpo de fuga e venceu o Prêmio José Saramago em 2007, por unanimidade, com o remorso de baltazar serapião.

Fontes. Lista final dos mais vendidos da Flip 2026, apurada pela Livraria da Travessa e publicada por O Globo em 27/07/2026 · entrevista de Valter Hugo Mãe à coluna de Alice Ferraz, Estadão, 19/07/2026 · entrevista a Tiago Palma, CNN Portugal, 14/06/2026 · trecho do romance transcrito por Diego Braga Norte na VEJA, 19/07/2026 · sinopse oficial da Porto Editora · cobertura do lançamento no festival Babell, Jornal Universitário do Porto, 01/07/2026, onde o autor assumiu a ligação da personagem com Italo Calvino.

Rodrigo Kluska

Aqui no Humanidade Retratada publico o ensaio original e completo após minhas impressões humanas e críticas. Após esse texto é criada uma síntese em outra linguagem mas com a mesma direção. Essa síntese é publicada em formato de reel em @humanidade.retratada no Instagram.

Ficha técnica

O Século dos Imbecis

Autor
Valter Hugo Mãe
Editora e selo
Globo Livros · Biblioteca Azul
Edição
1ª edição · 2026
Páginas
344
ISBN
978-65-5830-244-5
Formato
Capa dura · português

Onde encontrar

Edição física em livrarias brasileiras e edição digital. A disponibilidade varia por loja.
Encontrar na Livraria da Travessa ↗

Disponibilidade verificada em 17 de agosto de 2026. Catálogos e sessões podem mudar.

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