Verity: ninguém é dono da verdade

Qual a verdade? Manuscrito ou Carta?
Um currículo. Um perfil no LinkedIn. Nove fotos no Instagram. Uma frase dita sobre você numa sala em que você não estava. Uma reportagem, uma biografia, uma lembrança contada por outra pessoa. Cada um desses textos guarda alguma coisa verdadeira. Nenhum deles é você por inteiro. E, mesmo assim, é quase sempre por eles que a gente é apresentado, avaliado e, muitas vezes, julgado.
Verity, que estreou nos cinemas brasileiros em 30 de setembro, é sobre isso. E o nome já avisa. Em inglês, verity não é a verdade do dia a dia. É a verdade com letra maiúscula, aquela que não se discute. Vem do latim veritas e foi um dos nomes de virtude que os puritanos davam às filhas no século XVII, ao lado de Faith (fé) e Grace (graça).
A protagonista do filme se chama Verdade. E é justamente a verdade dela que ninguém consegue alcançar.
O filme é uma adaptação do romance que Colleen Hoover publicou em 2018 e que, oito anos depois, ainda está entre os livros de ficção mais vendidos do país.
Verity (Anne Hathaway) é uma escritora famosa que ficou impossibilitada de continuar a sua série de livros. O marido dela, Jeremy (Josh Hartnett), contrata Lowen (Dakota Johnson), uma escritora sem sucesso, para ser a ghostwriter que vai terminá-la. Na casa da família, Lowen encontra escondido um manuscrito: uma autobiografia de Verity, escrita por ela mesma. E o filme passa a nos fazer pensar: quem é Verity?
O próprio título do manuscrito já coloca uma dúvida. Ele se chama "Que assim seja". É mesmo ela ali, ou não? O livro, e agora o filme, se desenrolam sobre essa dúvida. E ela até hoje não se fechou: oito anos depois do lançamento do livro, há grupos de leitores que divergem sobre qual é a verdade. E que se dividem entre time Manuscrito e time Carta. A própria Colleen Hoover tinha escolhido um lado. Depois de ver o filme, contou que ficou dividida. A autora escreveu a história por um olhar, e a adaptação a devolveu a todos os outros. Nem quem escreveu Verity é dona da verdade de Verity.
Eu gostei muito do filme. Em tudo. O ritmo, os diálogos, as imagens, o suspense na medida, o erotismo na medida. A crítica lá fora se dividiu em quase tudo, mas concordou num ponto: Anne Hathaway está incrível.
Para quem leu, é bom saber: o filme retrata bem o livro. Há diferenças, no número de filhos, no peso de algumas cenas, numa Verity um pouco menos cruel do que a das páginas. Nenhuma delas muda o resultado final. Os cortes me parecem ser exatamente para tirar alguns pesos e gerar ainda mais dúvida sobre a verdade. O que o filme acrescenta é o que a página não tem: imagem e som. Para quem sente o mundo pelos sentidos, como eu, a cena que a imaginação tinha montado durante a leitura ganha corpo, ganha ruído, ganha luz. E a dúvida que o livro já tinha deixado fica ainda mais funda.
É desse ponto que nasce a minha leitura. A história permite pensar na diferença entre conhecer uma versão de alguém e considerar que já conhecemos a pessoa inteira. Quando Lowen lê o manuscrito, ele se transforma numa identidade total de Verity. Tudo o que ela faz passa a ser interpretado sob aquela luz. O problema humano aparece quando uma explicação parece tão completa que dispensamos qualquer possibilidade de confronto, de escuta ou de revisão.
E a gente faz isso o tempo todo. Lemos o currículo e achamos que conhecemos o profissional. Rolamos o perfil na rede social e achamos que conhecemos a vida da pessoa. Ouvimos o que alguém disse de uma pessoa e achamos que já conhecemos o caráter dela. Assistimos à reportagem e achamos que conhecemos a história. Cada versão chega com a força de uma prova. E, uma vez aceita, essa versão passa a explicar todo o resto.
Só que a verdade de uma pessoa não cabe no texto que encontramos sobre ela. Às vezes, nem a própria pessoa sabe toda a verdade sobre si mesma. Porque ainda não refletiu. Porque não juntou as peças. Porque não as organizou. Ou porque a água do iceberg está turva, mexida, e o que fica embaixo da superfície continua sem forma, até para quem o carrega.
Quando achamos que sabemos tudo, podemos nos deparar com uma outra versão. Quem sabe uma carta.
Tem uma frase no livro que resume esse impasse: "Não importa por qual lado eu olhe nesta história, está claro que Verity (verdade - a personagem) era mestra em manipular a verdade (a realidade dos fatos). A única pergunta que fica é: qual verdade ela estava manipulando?"
Vale muito a pena assistir.
Saí do cinema sem saber de que lado estou. Acho que vou demorar a saber.
Mas acho que isso nem é o que importa. O mais importante é a pergunta que o filme deixa: qual é a verdade? Ou, mais exatamente, quem é Verity?
A gente fica ali, parado na cadeira, com a luz da sala já acesa, tentando descobrir o que seria, afinal, a verdade.
Nós não somos donos dela. Nunca seremos. Nem da de Verity, nem da de ninguém.
Quem sabe? Manuscrito ou Carta?
Ninguém é dono da verdade!!
Ficha técnica
Verity
Verity (Estados Unidos, 2026) · direção de Michael Showalter · roteiro de Nick Antosca, a partir do romance de Colleen Hoover · com Anne Hathaway, Dakota Johnson e Josh Hartnett · 1h54 · classificação indicativa: 16 anos · distribuição: Sony Pictures.
Onde assistir
Nos cinemas, desde 30 de setembro de 2026.
Onde ler
Verity, de Colleen Hoover, Galera Record, tradução de Thaís Britto. Em papel, e-book e audiolivro.
Disponibilidade verificada em 1 de outubro de 2026. Catálogos e sessões podem mudar.


